terça-feira, 9 de março de 2010

ESTRELA CADENTE

Sentir-se só numa cidade com mais de 11 milhões de outras almas é uma experiência bastante desagradável. Traz uma sensação de incompetência muito grande. Imaginar a enormidade de pessoas procurando por companhia e não ter com quem conversar é muito frustrante. Quanto maior a densidade demográfica de uma grande cidade, mais avassalador é o sofrimento de uma alma que amarga sua incapacidade para compartilhar.
Semana passada, ao anoitecer, olhando pela sacada do meu apartamento, eu observava as luzes das grandes torres de aglomeração humana se acendendo, uma a uma, tão próximas quanto estrelas em galáxias desconhecidas. Quantos mundos inexplorados, quantos mistérios! Segredos guardados de tantas vidas... será que alguém pensaria o mesmo de mim naquele momento?
Cada uma dessas estrelas sempre representou para mim um beduíno que encontrou o seu oásis depois de viajar por um deserto onde os grãos de areia, incontáveis, infinitos, têm faróis e buzinas e carregam consigo outro viajante solitário pelo Saara de gentes. Chegar em seu bunker, estar em casa, é a recompensa por mais um dia de trabalho. Fazer brilhar as estrelas na constelação de São Paulo.
Quem vem de fora, como eu, sabe de seus problemas, anseia por suas dificuldades. Não se busca o sonho americano, é muito mais a necessidade do pesadelo paulistano. É sentir-se vivo, enfrentar adversidades, sobreviver às armadilhas diárias e triunfar, continuando a cintilar todas as noites no céu da capital, fazer parte dessa história.
Essa velha e gorda, simpática e desajeitada meretriz, recebe todos os dias seus garotos, inexperientes forasteiros vindos dos mais diferentes lugares. A todos abre seus braços flácidos, nada cobrando pelas lições de vida. Devora com sofreguidão seus sonhos, se alimenta de suas esperanças, entregando depois ao mundo homens prontos para o desafio da metrópole, essa dura realidade a que só resistem os fortes, os preparados, os que aprenderam a diferença entre sonho e ilusão. Os demais, os fracos, ficam pelo caminho. Não há tempo para lamentar por eles.
Pensei então será que sou hoje tão solitário quanto no dia em que cheguei a esse mar de estrelas? Ou o fato de hoje eu ser também uma estrela representa a evolução, os anos de aprendizado com a prostituta sagrada? Difícil de aceitar, mas é bastante lógico pensar que para os novos candidatos a estrela, minha história seja de sucesso. Levando-se em conta a miséria material de onde surgi, é mesmo um sucesso estrondoso. Mas por que então me sentia esse completo fracasso de ser humano?
Em muito pontos, me encontro hoje inclusive em situação inferior à do garoto pobre que chegou à capital. Até mesmo porque não sou mais um garoto e, portanto, não tenho mais a enorme vantagem de ter o caminho a percorrer. Acredito que o fim da estrada seria o mesmo, mas isso chega a ser insignificante. O que importa é o caminho. O caminho é obrigatório. O resultado é um mero detalhe. Então é um jogo sem chance de vitória.
Quando eu desci do ônibus na rodoviária do Tietê, há tantos anos, minha vida recomeçou. Tudo era grande demais, é como se eu ouvisse o grande russo me dizendo a todo instante: você é um piolho! A multidão circulava apressada, em dissonante sifonia, me deixando tonto, parecendo um imenso formigueiro. O frio, que eu senti pela primeira vez na vida, me cortou a carne, atingiu meus ossos, congelou minha alma. Nunca depois daquele dia eu voltei a sentir um frio como aquele.
Semiconsciente dos acontecimentos, fui sendo levado em direção ao meu destino. Da rodoviária ao metrô, aparentemente em direção ao centro da terra, e então de volta à superfície, entregue ao caos de um mundo futurista com visual retrô. A cada passo eu experimentava um misto de paura e liberdade absoluta. Um frêmito percorria minhas veias, e aquilo me excitava, mas ao mesmo tempo eu sentia no íntimo que cada metro adiante tornaria mais difícil achar o caminho de volta para um Teseu sem Ariadne ou novelo, com apenas uns poucos trocados no bolso e uma mala de couro que nem mesmo estava forrada como a do poeta, embora também cheirasse mal.
Mala que continha meia dúzia de roupas, algumas fotos e um livrinho preto, sem os meus poemas, mas com alguns telefones de contato e endereços. Era tudo que eu tinha, além de um milhão de sonhos, lembranças e esperanças. O que não é pouco, de forma alguma.
Hoje percebo que não cheguei naquele dia pensando que seria fácil. Sabia justamente que era mais provável dar errado, e que se desse certo, não significava que eu seria feliz. Estava mesmo preparado para ser infeliz. Tudo que eu queria era viver, fazer parte do lugar onde as coisas acontecem. Era preciso tentar. Mudar. E nada melhor do que recomeçar do zero.
E eu recomecei, do zero. Do metrô a uma pensão, de lá a um bico, a um emprego, a uma promoção, a um casamento, à independência financeira, a um divórcio dolorido, do qual ainda não me recuperei.
Acabei perdendo a queda de braço com a grande cidade, e, assim como cheguei, fui embora: uma mistura de medo e libertação, em silêncio sepulcral e meio tonto, anestesiado. A diferença era na bagagem. Tudo que eu conquistara e tudo que eu aprendera pesavam agora toneladas, mesmo que eu me sentisse então muito mais vazio do que no começo da jornada. Tudo era cansaço.
Se a vida na capital é uma coleção de problemas, acostuma-mo-nos a eles depois de algum tempo, e acabamos mesmo por necessitar disso, porque as coisas que nos fazem mal, nos fazem um mal tão grande que nos viciam o corpo e a alma, criando uma dependência quase impossível de ser superada. Assim, depois de algum tempo, acabei voltando para os braços da grande meretriz. Dessa vez como um antigo conhecido. Relembramos nossos velhos tempos com grande satisfação. Porque quando se recorda dias passados, a tendência é que eles pareçam melhores do que jamais foram ou poderiam ter sido.
Temos saudade do que fomos e do que vivemos, simplesmente porque então éramos mais jovens e cheios de planos, e não necessariamente porque tenhamos sido mais felizes. É preciso ter objetivos para resistir à realidade. Um ser humano sem projetos e esperanças é um cadáver ambulante. Vive pelo hoje, não faz falta ou diferença. E morre sem deixar saudade, sem que se pense no quanto deixou por fazer.
Sofre menos o imbecil que vive de planos de papel, os quais sabe que jamais poderá realizar, do que o sábio que permanece firme sobre o chão gelado da realidade. Um passado de erros podemos lamentar ou esquecer, um presente sem sentido podemos tentar alterar ou aceitar como temporário, mas um futuro sem perspectivas é insuportável. Corrói a tudo, acaba com qualquer sanidade. Destrói a alma humana de todas as formas.
Foi com esse estado de espírito, numa dessas fases de viver sem esperança, que eu vi, semana passada, uma quadra à frente do meu apartamento e muitos andares acima, da cobertura do prédio mais caro do bairro, a estrela cadente. Desceu como um raio perante meus olhos assustados, e me pareceu sentir sua necessidade de chegar com urgência ao chão, acabar com toda a dor, apagar de vez com aquela luz sem calor.
Por um instante, eu me senti parte daquela vida, integrante daquela história, conhecedor de tudo que levou àquele desfecho. Esse sentimento, porém, não durou mais que uma fração de segundo, e antes mesmo que a estrela cadente terminasse sua última viagem, eu fiz o meu pedido.
Estrela amiga, sei o que te faltou, aquilo que é preciso para continuar vivendo, para fazer os planos necessários à manutenção da esperança, para mudar o que não se aguenta mais, acabar com uma vida de erros e sem perspectivas de evolução espiritual: dai-me FORÇA! Pois só os fortes sobrevivem.
A noite de São Paulo me observou em seu silêncio ensurdecedor. Estou acostumado. Tudo grita e estremece, mas nada é comigo. Era o seu sincero incentivo, em forma de deboche e provocação.
Lancei-lhe um sorriso irônico pelos ares como resposta.
Esta estrela continuará a brilhar.

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